terça-feira, 31 de março de 2015

Não-passa-tempo




a tua mão na minha mão
a tua boca na minha
(frequentemente a língua intromete-se também)
abro os olhos nos teus olhos

o meu não-passa-tempo preferido



sexta-feira, 27 de março de 2015

Razões e motivos

dás-me uma razão
tão breve como húmida
entreaberta nos teus lábios

dás-me um motivo              
tão justo como quente    
na circunferência da minha língua na tua

entre motivos e razões o teu abraço é âncora 
a estrada no teu corpo onde viajam os meus dedos





quinta-feira, 26 de março de 2015

O infinito na tua boca



lá está o mar
sentado nas rochas a olhar para dentro de nós
traz nos cabelos o infinto
reparo em ti no abraço da areia
nos salpicos de sal na tua pele
e como contrastam com o sabor da tua boca
Como é que o infinito passou para ti?


quarta-feira, 25 de março de 2015

Furacão



os prédios revolvem nas árvores e
as árvores têm os prédios como frutos
balançando ao vento encarcerados nos braços
do dia
E há olhos a crescer na relva e o sabor é o da tua língua
serpenteando na minha boca
o teu riso é som de furacão vivo
vou deixar que a tempestade acrescente e amaine o meu corpo no teu

terça-feira, 24 de março de 2015

Futuro



nunca olhei para trás
para os espaços que deixei
andando pé ante pé na
neve que me cobriu
antes do inverno
quem trouxer a chave
inventa o tempo



segunda-feira, 23 de março de 2015

de mim para ti, leonard cohen

(22-03-2015, a ouvir famous blue raincoat de leonard cohen)
para ti, l. cohen:
são 4 da manhã e não, não estamos no fim de dezembro, nem te estou a escrever só para saber se ela está bem
estamos no fim de março, na primavera, embora pareça que o inverno não se quer despedir
pelo menos este que não se cansa de danças esquisitas comigo
e não me deixa dormir
por isso, l. c., deixa-me dizer-te que, efectivamente, são 4 da manhã, fim de março, e a nossa vida não é um poema nem uma canção
mas seria tudo mais simples se fosse
era só alterar a letra...
sinceramente,
rui vieira






domingo, 22 de março de 2015

A minha pele pela tua



Vamos voltar atrás. Importas-te?
Repetimos a cena. Café, bolo repartido entre as nossas bocas, o beijo.
Desta vez falas tu. Podes disparatar. 
Talvez já tenham voltado os patos e os peixes ao lago.
Pode ser que tenham voltado com a primavera.
Podemos ficar a mirá-los no soslaio dos beijos.
Tu vestes a minha pele e eu a tua.



sábado, 21 de março de 2015

Dia mundial da poesia...




Entrei no snack-bar para tomar um café.
O dono olhou desconfiado para mim e franziu o sobrolho.
- Oiça lá -, disse - você acha que isto é alguma tasca? Sabe que dia é hoje? Hoje é o dia mundial da poesia!!
- Ah, ok... - respondi, - quer que eu fale em verso? 
- Não é preciso tanto, para versejar é preciso uma perspicácia e inteligência que, pelo seu ar, não me parece que tenha. Mas pode tentar prosa poética. É sempre agradável. 
- Mas eu queria só um café...
- Um café, a paz mundial, um bolo, o fim da fome no mundo, não interessa. Hoje é o dia mundial da poesia. Não fui eu que fiz as regras.
Encolhi os ombros. Mirei-o de frente. Inabalável. Olhei lá para fora. Apesar de ser sábado a polícia municipal tinha acabado de bloquear o meu carro em cima do passeio.
- Esqueça o café... - atirei - hoje não estou inspirado e os poetas estão todos no parque das nações... - e saí.
Dirigi-me ao polícia: - Oiça lá, sabe que dia é hoje?




Eu?

Poderia mudar.
Mudar tudo o que tu quisesses
as paredes, a roupa, 
os móveis e as tralhas, o andar, 
Mudar a forma como falo, 
aprender uma língua qualquer estranha 
ignara,
as músicas que ouço e aprender a dançar, 
talvez o tango.
Poderia mudar.
Mudar tudo o que tu quisesses 
para teu prazer.
De profissão, deixaria de advogar
talvez me tornasse pintor.
Iria ao médico 
curar-me-ia da loucura.
Mudaria de nome 
se achasses bem.
Seria por pouco eu
Quase outro
Restaria algo de meu?

sexta-feira, 20 de março de 2015

As noites são cortinas desbotadas



As noites são cortinas desbotadas
Que se fecham e abrem num teatro velho
Bafiento assombrado
Onde já ninguém quer representar
Perderam-se os ecos das palmas
Com as derradeiras vénias 
Cenário decrépito
Abençoando o vazio
Ocasionais gravuras nas paredes que choram
- É assim que tem de ser -
Diz o actor esquecido da deixa
Sonha com velhas glórias
Flores recortadas nos olhos
Olhando a plateia vazia
E tu com elegância de valquíria
indiferente
Por qualquer razão desconhecida
Ensaias novos palcos na vida 


quinta-feira, 19 de março de 2015

PUZZLE


Porque é que tudo tem de ser como queres?
Cheia de certezas e teorias, rigores dogmáticos, avaliando psicologicamente o futuro como se o futuro fosse eu e fosse certo.
Dizes que não temos de ser perfeitos. Não, nem devemos ser perfeitos.
A procura da perfeição é uma chatice que esconde as pequenas imperfeições de que somos feitos, que nos fazem únicos, diferentes. A procura da perfeição torna sempre o ser humano insuportável. Quem quer viver ao lado de alguém perfeito?
Dizes que não temos de ser perfeitos. Pois não. Não nascemos para ser perfeitos.
Eu, por mim, nasci para ser como sou. Adaptando-me às minhas imperfeições e defeitos e tentando encaixar-me no puzzle das tuas.
Não temos de ser, não devemos e não nascemos perfeitos mas fora de nós há momentos quase perfeitos.
Por isso aproveita, vive. As noites vão caindo apesar das tuas certezas e o amanhã ainda não chegou.


terça-feira, 17 de março de 2015

Coisas da paixão



Ele nunca acreditou em amor à primeira vista.
Até que um dia foi ao oftalmologista e descobriu que precisava de óculos.
Hoje anda sempre com eles no bolso da camisa bem em cima do coração.
Pode ser que dê resultado.
Gaita, são complicadas estas coisas da paixão...

A LEI DA ATRACÇÃO UNIVERSAL


A LEI DA ATRACÇÃO UNIVERSAL
(newton para totós)

Não há nada como chegar o fim da tarde, largar as contestações, alegações, requerimentos, pareceres e poder discorrer sobre outra espécie de disparates, científicos, por exemplo.
E hoje, sei lá porquê, apetece-me discorrer sobre a Lei da Atracção Universal.
Se vocês não sabem, ficam a saber: Há uma lei da atracção universal. Dizem.
Poderão pensar que me caiu alguma maçã na cabeça, ou coisa do género. Pois têm razão e já foi há alguns dias mas não foi maçã, foi coisa do género: matéria fecal do género Columba, da classe das aves, aqueles seres vivos vertebrados, bípedes, ovíparos, caracterizados principalmente por possuírem penas, asas, bico, ossos pneumáticos e que têm boa pontaria.
Mas voltando à atracção universal. Sabemos uma coisa: exerce-se entre dois corpos. Newton dizia que era devido aos corpos terem uma certa massa. Isso não sei. Mas parece que um dos corpos ter bastante ma$$a ajuda um bocado com alguns dos corpos, para os quais a força da atracção é tanto maior quanto maior for a massa.
Se vocês não sabiam, ficaram a saber: há efectivamente uma lei da atracção universal. Dizem.
Porque na prática, torna-se difícil provar a existência desta força de atracção.
Eu conheço uma força difícil de explicar que nasceu sem querer. Mas não é universal. É só de ti para mim.
Amanhã volto às contestações, alegações, requerimentos e pareceres. Só espero não encontrar a pomba.

Do teu tamanho e só do teu tamanho


Quero esquecer-te 
mas não sei bem como fazer
Talvez porque me prometeste 
poder voltar ao dia
em que o teu cabelo tocou
as mãos vivas
envolvendo os dedos
impregnando a pele
dissolvendo-se dentro da concha 
que o peito um dia abriu para ti
Apenas para ti
Do teu tamanho e só do teu tamanho
Quero esquecer-te
mas não sei bem como fazer
Que o teu silêncio não serve
e as coisas não acontecem assim
Onde os teus olhos geraram as estrelas
ficou um alambique feito carne
que destila apenas perfume
feito da essência do que foi e da saudade


domingo, 15 de março de 2015

O HOMEM DO LIXO - a irresistível atracção da loucura


Poderia afirmar, com uma elevada dose de egoísmo e auto-comiseração, que a minha vida já teve a sua dose de azares.
Mas não, isso é a história do bandido. Sei que os azares foram de quem a vida forçou a partida, não meus que fiquei, que sobrevivi, e que tive de adquirir a necessária resiliência que me tornou resistente, que me endureceu o couro. Que me fez olhar para as coisas de forma diferente, que me fez valorizar a vida e os seus momentos em vez dos pedaços materiais de que é feita e que tanto gostamos ou idolatramos. Que me fez relativizar o passado e a não viver de fantasmas.
Talvez pelo que passei tenha ficado mais receptivo a lidar com a loucura dos outros, assumindo que eu sou tão terrivelmente normal que essa normalidade poderá ser vista como anormal e, partindo dessa premissa, a conclusão óbvia é que sou mais louco que os loucos, afirmando, sem rebuço ou pudor que sou louco. Há quem acredite.
Lembro-me, no entanto, que nisto de premissas e silogismos é preciso colocar alguma ponderação e cuidado. Veio-me à memória o meu saudoso professor de Filosofia no liceu que nos repetia que uma cadeira tem braços, os braços têm mãos, as mãos têm unhas e se quem tem unhas toca guitarra a minha cadeira poderia ser uma virtuosa da viola... Mas não é.
Por isso, o facto de eu ser terrivelmente normal não significa que a minha aceite e reconhecida forma de insanidade seja uma competência para melhor compreender a “loucura”.
É por isso que existem pedaços de loucura que sempre me apanham desprevenido. Aliás, a minha normalidade parece exercer uma irresistível atracção sobre a loucura. Não enjeito a culpa que posso ter nesse departamento.
Vem isto a propósito de uma conversa com um amigo, queixando-se da sua vida, que me lembrou que a minha primeira vocação e actividade era, afinal, a de homem do lixo.
Eu explico.
Imaginem alguém que entra em vossa casa cheia de sacos com lixo que anda a transportar há muito tempo. Pede desculpa. Coloca os sacos no chão, fica um bocadinho e vai-se embora deixando-me o lixo.
Parece estranho mas acontece e o mais curioso é que, quase a atingir as seis dezenas de anos, ainda não aprendi e ainda deixo que entrem na minha vida e me ponham a limpar a confusão e o lixo que arrastam, saindo depois livres, limpas e de consciência leve, deixando-me o estrénuo trabalho de limpar e voltar a organizar os espaços que ocuparam dentro de mim.
Técnico de salubridade e resíduos de “anima”, é o que sou. Sem recompensa. Sem reconhecimento. Trabalho duro, sujo e mal pago.
Mas chato, mesmo chato, é depois de me deixarem o lixo e todo desarrumado, saírem com ar “blasé” e olhar reprovador dizendo que eu é que sou um gajo complicado...
Ah, pois... Sou são, grita o louco. Ai! Sou louco, grita o são.
Haverá por aí alguém com a dose certa de loucura?


sábado, 14 de março de 2015

Só se me leres como eu te leio

É escusado fazer de conta que escrevo
As palavras nascem e eu não sou parteiro
Adoecem e não sou médico
Transfiguram-se e não sou mágico
Tenho um astrolábio que me indica a hora
Um relógio que me indica o rumo
Uma régua que traça curvas
Uma parede que serve de prumo
Tenho chão que me cobre a cabeça
Um tecto onde finco os pés
Uma cama onde escrevo
Uma mesa onde durmo de través
Tenho uma janela por onde entro
Uma porta por onde espreito

O que poderia ter feito

É escusado fazer de conta que escrevo
Só se me leres eu apareço



sexta-feira, 13 de março de 2015

Manhãs que cantam



Hoje apetecia-me fazer o pequeno-almoço, levar-to à cama e ver-te acordar.
Os teus cabelos que imagino desalinhados na almofada, caindo sobre os teus olhos, o cheiro do dia que acorda contigo na tua pele. Os teus lábios acabados de sonhar, como eu te sonho.

Hoje apetecia-me conhecer as manhãs que cantam.



quinta-feira, 12 de março de 2015

Um rio na palma da minha mão



À noite não se vêem as árvores 
escondidas no lençol negro

À noite não te vejo a ti 
escondida dentro de mim
com os olhos nas estrelas
a pulsar no teu peito

É mais fácil ver o mar
ou talvez esteja enganado e seja
um rio que corre na palma da minha mão
quando te toco

À noite há colunas com dentes 
sobrepostas no peito
quando adormeço depois
da dança selvagem das nossas línguas


Frémito





há uma esperança que caminha descalça indefinida no abraço que termina 
começando imponderável insustentável respiração conjunto equação & solução 
mistura simbiose frémito fome do teu corpo & o teu corpo o teu corpo 
é vela que aguarda sôfrego o vento & resiste à tormenta & ao tormento do meu beijo



quarta-feira, 11 de março de 2015

LX FACTORY



Hora de almoço
Explosões, cores radiais, velocidade, sabores
Lisboa ribeirinha
escadas metálicas, sol
- bebe mais um pouco, pá! -
música
O almoço acaba
Porra, só consigo lembrar-me que te amo!
Preciso de mais um café...
E se viesses comigo?

A quatro mãos




Podia escrever contigo. Escrevermo-nos. 
Porque eu não escrevo como tu, nem tão bem. Escrevinho, rabisco atabalhoadamente no papel ou desajeitadamente martelo as teclas juntando letras. Tentarei não te atrasar.
Talvez fosse um exercício útil e conseguisse completar aquela parte que escreves em mim.
Parece-te impossível? Não sei, há muita coisa que nem a idade me deu a conhecer. Mas só saberemos se tentarmos. Assim como um dueto, ou um concerto a quatro mãos. 
Sentas-te a meu lado. Exercitamos os dedos. A música está aí.
Sente... escreve, como sempre escreveste... acompanho-te...

terça-feira, 10 de março de 2015

E mais Passados, para variar

DE TI E DAS ESTRELAS

2010



Tens a ilusão da manhã que acaba.

Do sol que transpõe essa fronteira desenhada apenas nos teus olhos.

Não passa de ilusão.

Do outro lado o campo é vasto e verde e falamos numa língua de segredos.

Deixa-me mostrar-te.

Ergo as minhas mãos como passaporte e toco as nuvens que vigiam o tempo que nos falta.

Ris-te, num trejeito que sei de cor, táctil, nervoso e eu rio-me para ti sem jeito.

Nunca pensaste nos dias como dimensão que visitamos.

E eu nunca pensei resistir ao teu riso como brisa que me alimenta.

Tranquiliza-me conhecer todos os códices que nos garantem a passagem.

Que sorte seria a minha sem a travessia dos teus lábios?

Sei a morada do teu corpo.

Sei do tumulto nos teus braços.

Sei da noite e das folhas que nos sepultam em queda ébria no inverno.

Sei dos abrigos de todas as tempestades.

Não preciso saber mais nada, nem nada mais existe que deva saber.

Adormeço embalado pelo suspiro prateado da lua mergulhando no teu cabelo.

E a terra dança cobrindo-se de estrelas.




Se me dissesse impossível



Se eu me dissesse impossível
ou me sonhasse impossível
durante a noite pintando montes e vales
no lado obscuro da lua
esperando o dia e as flores
que deixei crescer nos teus ombros e
descesse de novo à terra no rasto do cometa
saído da galáxia mais distante e mais improvável

Se eu me dissesse inventor
ou me sonhasse inventor
inventando a maquinaria celeste dos deuses
com asas e botões e rodas dentadas
cores que ninguém viu
odores maravilhosos que nunca ninguém sentiu
desenhando milagres com um simples gesto
na abóbada negra do tempo

Então calmamente sem pressa
despertaria o oásis no deserto da manhã
percorreria o teu corpo em silêncio
vigiando a miragem arquear do teu peito respirando


segunda-feira, 9 de março de 2015

Décimo quinto dia


Começo a semana ainda mergulhado nas águas límpidas e tranquilas para as quais 
me transportaste sem que percebesse. Ou fiz de conta que não percebi tentando 
ocultar a inevitabilidade.
Como foi que aconteceu, é coisa que poderás questionar, mas não duvidar. 
Não foi preciso muito nem nada de mágico. Apenas as tuas palavras e os teus olhos, 
principalmente os teus olhos. Curioso é que quer uma coisa quer outra não têm 
qualquer feitiço ou magia. Não necessitam. Seria redundante, perigoso e alucinante. 
As palavras porque são a mera representação em fonemas de uma vibração  que te 
compõe. Os olhos por terem sido porta de entrada dos meus em ti.
Mas dessa insuspeita tranquilidade nasce na profundidade das águas em que flutuo 
o  brilho da vívida e misteriosa turbulência do abismo do teu corpo que como alga, ancorada nas rochas mais deslumbrantes, se roça e enrosca em mim e me traz da superfície onde arde ainda a pira do abraço rápido, urgente, fugitivo.
Quinze dias é muito tempo ou pouco tempo, talvez tempo nenhum ou mais do que 
suficiente para num abrir e fechar de olhos continuares o vórtice líquido 
onde me mantenho.

domingo, 8 de março de 2015

Enquanto há sol





Sempre que te escrevo é como se fosse a primeira, é como se fosse a última. 
Por isso quero colocar tudo o que sou no que escrevo cada vez que te escrevo. 
Que as marcas na minha alma fiquem claras e que deixem a minha marca em ti 
como as tuas deixaram em mim, indelevelmente. 
Que um dia te possas lembrar que não existiu ninguém como eu, assim como eu 
me lembrarei de ti.
Aqui ao sol, com um café e um cigarro, depois de um tão longo inverno, não sei 
se o que escrevo terá esse efeito mas é uma presunção minha, e lá diz o ditado 
que presunção e água benta cada um toma a que quer. 
E eu tomo o sol, aqui ao sol, enquanto há sol, sentindo-te no raios que passeiam 
pela minha pele.
Nunca saberemos se será assim como desejamos. Mas conforta-me pensar que sim.
Os dias poderão passar, o tempo será outro, virão outros verões, outros invernos, 
sempre na certeza das primaveras, estaremos mais velhos, poderemos, até, 
seguir caminhos muito diferentes mas seja qual for o que escolheres, se quiseres, 
eu estarei lá, de braços abertos para te receber e para passar os dedos 
pelo teu cabelo, no fim desta viagem.
Sempre que te escrevo é como se fosse a primeira, e esta pode muito bem ter sido a última.


sábado, 7 de março de 2015

Até ficar exausto



Declama-te, pronuncia-te, inventa-te.
Estás tão dentro de mim que de olhos fechados, lábios cerrados, ouço-te.
Mesmo que não quisesse. E quero.
Não preciso de abrir os olhos para te ler e à poesia que se transfigura e nasce de ti.
Ouço-te.
Como as minhas mãos ouviram as tuas lentamente.
Declamo-te, pronuncio-te, invento-te,
Porque estás tão dentro de mim que não quero deixar-te partir.



MON SEUL DÉSIR


Um dia há muitos anos uma tábua ouija - muito pouco tábua na verdade, não passava de uma folha de papel rabiscada -, no rescaldo do Exorcista, anunciou, com aquela certeza de cigana que nos lê a sina no meio da rua, que eu morreria de amor.

As palavras exactas que se formaram foram “rui morre de amor”.

Passados 40 anos ainda não morri, nem sei quando morrerei, é coisa que não me preocupa. Mas, olhando para ti, lembro-me que mon seul désir é, se não morrer de amor, vivê-lo até morrer.


sexta-feira, 6 de março de 2015

Segredos





Pensei, existem segredos nas coisas.
Segredos que não residem na explicação subatómica da matéria, em simples reacções químicas ou biológicas, em complicada física quântica, arquitectura estelar ou na fé mais pura e sempre ignorante.
As árvores estavam ali, imóveis e majestosas, talvez há centenas de anos e, mesmo assim, desconheciam tão rudemente esses mistérios como eu.
Ao passar, agitaram as suas raízes, no que me pareceu uma tentativa fracassada de se moverem ou contestarem, e clamaram - Olha bem para nós que aqui estamos eternizando a morte e, no entanto, tu envelheces, com a vantagem de poder manter imberbe o riso na memória! -
- Reparem - disse-lhes, - que vantagem é poder recordar o tempo que passa, o espaço entre cada segundo, esse momento mágico que compõe o tudo e o nada? - (Recordar que hoje, novamente, dei pela tua falta nas nuvens não é vantagem e há dias que são compostos unicamente por sentir a tua falta).
Foi então que uma das árvores mais pequenas lançou os ramos na minha direcção, alcançando-me, e me abraçou suavemente.
Pareceu-me ouvir o teu nome sussurrado pelo vento a ziguezaguear pelas folhas.
Olhei para o céu por entre a folhagem. 
Continuavas a faltar nas nuvens.
Mas descobri que não podias estar mais perto do que estavas naquele momento estando dentro de mim.  

Simetrias




Passaste em frente da minha janela

Talvez tenhas sido tu
ondulando com uma estranha simetria
nas pedras assimétricas da calçada

Podes não ter sido tu
mas isto foi há 30 anos atrás

Ondularias de maneira diferente
e até as pedras da calçada seriam 
assimetricamente diferentes
menos gastas e agastadas
de tantos pés que ficaram perdidos 
em ecos de sexo, lágrimas, raiva
tempos mudos de lembranças

O jardim era diferente 
cortado por curvas estradas 
negras de alcatrão

A janela, essa, terá outros vidros
a necessitarem de ser limpos 
das rugas que nasceram
nos olhos que dolorosamente
suportaram não te ter visto
obrigados a parir
ganindo
a tua imagem tatuada 
com ferro em brasa 
na parte de trás do meu cérebro 

Podes ter sido tu 
continuas igual ao que não conheci
30 anos depois



quinta-feira, 5 de março de 2015

Confissão

Vou contar-te um segredo que não é bem um segredo é mais uma confissão.
Sinto-me impotente para te descrever e isso aflige-me.
E esse segredo é também um desejo, o de reunir o mundo nas minhas palavras, intérprete, conseguisse traduzir as imagens, as cores, os sons, os perfumes, o movimento, com o toque dos meus dedos, e no monitor que complacente fica estático à minha frente as mesmas voltassem na sua dinâmica a ser imagens, cores, sons, perfumes, movimento, coisas que apreendesses com simplicidade e te reencontrasses e revisses nelas e dissesses: sou eu de quem falas, sou eu que te atormenta sem necessidade, sem querer. Estou aqui, amo-te! Esperei-te tantos anos, vem me buscar!
Num instante eu iria e dentro de mim esta inquietação, as imagens, as cores, os sons, os perfumes, o movimento, finalmente estancariam, descansando. O véu desta paz que não conheço seria o manto, o lençol, o leito apaziguador no qual sereno te diria tudo o que tenho para dizer e te amaria.


Tantalizado




espera não te mexas
fico ébrio com as moléculas de ar que deslocas
tropeço a cada instante fico exangue 
tu mereces muito mais e eu preciso mais de ti
espera não fales
fico viciado nas palavras que proferes
sem saber para onde vou ou o que sou
tu mereces ainda mais e eu preciso tanto de ti
talvez se fosse um deus mesmo menor
um louco ou um poeta
(que inveja que tortura) 
me suportasse Tântalo para sempre
talvez num momento indiscreto de alquimia insolente
alcançasse o bem supremo 
aprendesse a cantar-te eternamente


quarta-feira, 4 de março de 2015

Vício



Redondos são os pensamentos, meros espaços articulados na distância angulosa da tua ausência.
Uma crónica que desfio interminavelmente entre mãos que suplicam outros silêncios, cúmplices.
Porque há silêncios diferentes, aqueles que se habituam ao desespero e revolta do beijo por dar ou ao simples acariciar das memórias com o teu nome.
Redondos são os pensamentos, como este vício circular de pensar em ti.



Se fores nascente serei escarpa




Se fores nascente serei escarpa
o leito as margens que te abraçam
caindo da altura
Serei sombra de árvore 
sequiosa na encosta 
metamorfose eclodindo indolente
no suave e lento meandro 
da líquida planície do teu ventre
Serei foz mar amplitude
o sal que no doce se mistura
A memória sem vergonha
sem nada que a destrua
que por ti passeia intacta 
mágica 
vibrante 
e nua


terça-feira, 3 de março de 2015

Não escrevo, és tu que escreves em mim..

As minhas mãos pairam inconscientes, nuvem sobre o teclado.
Esperam por ti.
Não sei se quereriam esperar por ti assim ou de outra maneira, mais suave, 
tacteando a tua pele. Mas é uma questão de oportunidade. 
Certo é que não só elas, mas todo eu, nos tornámos um veículo teu, 
incapaz de dominar qualquer acto volitivo, físico ou criativo.
Possuído, de repente, movimentam-se rápido.
Sou tomado pelas imagens que perpassam por mim, os sons e o coração 
recrudescem, cada vez mais fortes.
Não sou eu, é o prenúncio da tua invasão. 
Não me lembro de ter resistido. Não sei se quereria ter oposto alguma resistência 
ou opor, um dia.
Fico quietinho num canto a assistir às descargas, os neurónios e as suas sinapses 
revolteando, a observar a génese da vida enquanto me tomas para ti, 
espectador incapaz de mudar o curso dos acontecimentos.
Sou surpreendido e desconheço o que as minhas mãos escrevem, corro o risco 
de ser dado como inimputável enquanto cruzo estas fronteiras entre nós.
Considerem-me justificado.
Porque há um processo que levas a cabo sem eu querer e que me apraz.
Ter-te assim, sem pedires licença.
Seja o que for que escrevo és tu que escreves em mim.